"A cor me possui. Não preciso ir atrás dela. Ela me possui para sempre, eu sei. E esse o significado dessa hora feliz: A cor e eu somos um. Sou pintor".
Paul Klee, 1914, Diário do Norte da África

Pintura / Mosaico

Pinto desde os seis ou sete anos de idade. Nessa época minha maior distração era pintar e copiar as naturezas mortas de Odilon Redon que via em um livro, e as pinturas do Iberê Camargo. Um dia meu pai adquiriu um Volpi. Peguei um compensado de madeira e fiz um trabalho volpiano. Era mais ou menos assim: uma linha quase vertical de cima abaixo, levemente inclinada e várias convergentes fazendo o desenho de uma espinha de peixe; todo em vermelho e azul cerúleo.

Aos 16 anos, entrei para o MAM do Rio como aluno de pintura do Sérgio Campos Mello e de desenho do Aluísio Carvão. Sérgio, um sujeito grande, dionisíaco, experimentava naquela época (1974/76) a arte conceitual. Ele trouxe para os seus alunos muita pintura moderna e contemporânea para ser vista/discutida - Hopper, Sheeler, Stael, Pollock, Rothko, os artistas da pop, os franceses, etc...

Cobri de branco a minha pintura volpiana e no lugar fiz uma paisagem urbana, um prédio contra um céu azul limpo e tudo o que o homem havia plantado - dutos, antenas, as sombras dos telhados, etc.. Havia um toque de pintura italiana, Carlo Carrá, Morandi, pintura metafísica e outras manifestações da época.

Já o Carvão dizia que eu "sabia desenhar". Eu era seu aluno mais jovem, ele me chamava de "moço" e mostrava sempre meu trabalho como exemplo. Suas classes eram silenciosas. Gostava que desenhássemos um florão barroco em madeira, uma banana da terra - o Carvão era assim, jaleco branco, olhos azuis, como um anjo.

Sou um artista intuitivo. Trabalho exclusivamente com têmpera, óleo e aquarela. Tive um breve período de gravador. Imprimi algumas dezenas de imagens minúsculas em metal. Todas eram peças únicas, entintadas diretamente nas chapas de cobre.

Mas a minha paixão sempre foi a cor, a matéria. Jamais quis me dispersar e enveredar por outras estradas.

A pintura a óleo foi a primeira técnica que experimentei. Os primeiros tubos me foram dados pelo poeta/pintor José Paulo Moreira da Fonseca, amigo de meus pais, colecionador de Visconti e Batista da Costa. Havia até um Delacroix, uma paisagem diminuta, noturna. O reflexo da lua, um lago, uma nuvem branca ou qualquer coisa que a minha imaginação de menino possa ter inventado.

As vêzes meu pai me deixava na rua das Palmeiras em Botafogo no ateliê de seu amigo Iberê Camargo. Mostrava-lhe minhas pinturas - via o mestre em atividade. Foi lá que vi os primeiros tubos de tinta Blockx.

Com 18 anos conheci na casa de João Cabral de Melo Neto o pintor José Maria Dias da Cruz filho do escritor Marques Rebelo. João Cabral tinha vários trabalhos meus. Logo estávamos falando de Cézanne e Klee. Alguns dias depois fui ao seu ateliê em Laranjeiras. Levei algumas pinturas e desenhos. Ficamos amigos para a vida inteira. Sua análise sempre foi a mais profunda e honesta. Em 1985 conheci o poeta Theon Spanudis e o colecionador Ladi Biezus. Foi na galeria Arco por ocasião da minha primeira exposição em São Paulo. Ladi foi meu primeiro grande colecionador. Eu começava a viver exclusivamente para a pintura.

A intuição me guia. Não racionalizo enquanto pinto. Simplesmente respiro, vou em frente.Não procuro nada, as vêzes tento chegar a um colorido inatingível.

A cor me faz pensar plasticamente. Estou mais ligado a uma ação cromática do que a estrutura formal. O saber fazer é provavelmente fruto da repetição. Para fazer pintura é necessário pular o muro dos sonhos - sair para outros serenos.

As vêzes aparecem em relação ao meu trabalho, referências a Cézanne, Klee, Mondrian, Braque. Outras a tecidos imemoriais, a culturas antigas, uma espécie de evasão, estranha mistura de fontes. Antes do começo há sempre algo. Há o mistério e o movimento da mão, a construção da pincelada e o inexplicável. Surgem as imagens - currais de peixe com sua arquitetura imprecisa banhada pelo azul do céu e pelo verde do mar.

Vejo também as construções simples e limpas adornadas por uma sumária geometria, capelinhas de beira da estrada; ou a recordação da viagem a Penedo em Alagoas. O imenso Rio São Francisco, as lavadeiras e seus varais de roupa colorida quarando sob o sol. Vejo muitas coisas. Procuro a aproximacão com o que é real, com o tecido africano ou o retalho mineiro/nordestino. Lembro-me das fitinhas coloridas no mercado do Recife e do carrinho de raspadinha na praia da Piedade.

Sou um pintor por vocação. Minha pintura é um ato de devoção. Trabalho atualmente em uma nova série. E como se fosse uma prece. Batizei-a de prière. São pinturas horizontais em têmpera, folha de ouro e colagem (papéis populares de oração chineses) . Quando concluidas lembram partituras musicais, ladainhas intermináveis ou fugas e variações. São meus salmos visuais. Em cada prière há a busca de um colorido, ou melhor, de um ritmo cromático. Há nelas também a sensação da mobilidade da forma, do plano e do espaço em uma profundidade rasa.

Trabalho também em uma série de objetos. Comecei a fazê-los em 1984. A princípio ficavam no plano da parede. Mais tarde passei a trabalhar toda a superfície. Passei também a calcinar estes objetos de madeira. Em alguns deles trabalho com a quase impossibilidade da pintura pois uma vez queimados tangenciam a imaterialidade .
São quase pigmento puro (negro de fumo). Em outras aceito as marcas que o tempo impôs. São objetos que vou recolhendo ao acaso na beira das praias brasileiras ou nas margens do rio Sena.

Não penso nestes objetos como esculturas. Não há da minha parte a preocupação com a forma no espaço. Para mim são registros cromáticos no espaço e no tempo.

Olhando para o tempo que passou percebo que há nestes últimos anos o acúmulo de algumas séries de trabalhos. Em cada série pesquiso as possibilidades e limites da pintura.
Trabalho em várias pinturas, objetos e aquarelas ao mesmo tempo. Não procuro a conclusão de um trabalho. Como já disse, não acredito na racionalização do pensamento pictórico. O que me encanta é o ato, a experiência em si, o estar ali fazendo algo que traduza a minha maneira singular de ver, perceber e exprimir o mundo.

Em minhas últimas têmperas vejo aparecerem as lições dos anos, da prática como aquarelista - penso no saber como fruto da acumulação.

Trabalho desde a transparência à opacidade absoluta; sistema pendular de expressar a cor.

Na pintura a óleo a cor aparece mais macia, fruto da refração da luz sobre a camada de óleo de linhaça. Nessas pinturas a matéria sempre foi um dado importante. Sempre presente, a pincelada funciona como uma voz. Constrói as palavras, dá o encadeamento da oração. São pinturas em sua maioria em grandes formatos em que a matéria pictórica tem uma densidade muito forte. Fiel à lição de Braque, construo a minha pintura como um edifício, de baixo para cima, em sucessivas camadas.

Sou um "animal pictórico". O ateliê é o meu espaço. Nele me sinto livre pois o tempo não existe. Minha pintura não é a ilustração dos meus sentimentos.

Trabalho o tempo todo com o que é real. Mesmo a subjetividade e a ambiguidade são reais. Há anos que trabalho numa série de pinturas que chamo de rios. Assim como o acidente geográfico, o meu rio é percebido na sua linearidade, correndo de uma borda a outra. Sua matéria é quase sempre rugosa como o aluvião deixado pelas marés sucessivas. Sua extensão é composta por faixas horizontais de cor, às vezes linhas que aparecem, somem e retornam novamente a superfície.

Em trabalhos recentes desta série tenho feito colagens com tecidos de algodão, cetim, serpentina, papéis dos mais variados. Depois trabalho com têmpera em sucessivas camadas em cada uma das faixas. Outras vêzes deixo como está. E o "rio" que se transforma no tecido estendido sob o sol forte do meio dia.

Há outras séries como "as bandeiras", que fiz num primeiro momento em 1983/84. Retomei-as há dois anos. Pareciam dialogar com os tecidos e bandeiras Asafo ou com os Kente. Algumas em azul índigo me faziam pensar nos bubus do Senegal ou nos tecidos do norte da Africa. Este continente sempre esteve presente em meu imaginário. Quer na música ou na maneira com que olho algumas pinturas do Volpi (quando ele deixa de ser pré-renascentista e expressa uma ancestralidade escondida).

Há a série "fête africaine". São pinturas onde o gesto de desenhar aparece de forma mais evidente. Estas pinturas partiram de uma pequena tela da juventude de Georges Rouault que vi em Paris no início dos anos 80.

Há também uma extensa série encerrada há algum tempo em que surge em minha pintura a imagem da árvore numa evidente alusão ao lugar onde instalei meu ateliê - existem outras como barcos, naturezas mortas (que pouco mostrei), panos da costa - tecidos africanos que atravessaram o oceano e podem ser vistos ainda hoje na procissão de 15 de agôsto na cidade de Cachoeira na Bahia. Todas elas acabam por se comunicar, pois como gosto de afirmar, a pincelada é a minha caligrafia. E uma das possíveis chaves de entrada da minha pintura. Realiza o trabalho, oscila entre ser o elemento indutor da cor e ser aglomeração de pigmento, matéria pura.

Gonçalo Ivo
Agosto/2006